
Iniciei a minha graduação em 1998, ano em que a Educação Física estava sendo regulamentada como profissão. De lá pra cá, muita coisa mudou na formação dos profissionais nesta área e hoje se percebe um grande avanço acadêmico na concepção do ser humano e uma abordagem mais integral na qual o profissional de educação física é capaz de contribuir para a formação humana. Minha carreira tem mudado significativamente de paradigma, desde quando iniciei minha busca por um sentido maior de atuação nesta área. O movimento corporal humano é o objeto de estudo da área, contudo apenas como uma forma de se descobrir um aumento das "capacidades de rendimento físico".
No início da minha carreira profissional na Educação Física, eu via o corpo como uma máquina com capacidades e habilidades restritas, na dimensão física e motora. A atividade física promovia saúde física e “algum bem-estar” como consequência, como liberação de endorfina, por exemplo, mas não imaginava a profundidade de todo um sistema complexo que é ativado e gerado no organismo. A forma e a performance eram objetivos tradicionalmente desejados e, portanto, traçados, pois estética e desempenho sempre foram valorizados na área, e por mim consequentemente.
No entanto, me sentia incomodada com algo que eu ainda não tinha consciência, e que parecia faltar em meu trabalho nesta área. Cheguei a fazer uma especialização em Acupuntura, um curso bem diferente de tudo que já tinha visto, o qual que me abriu a mente para novas formas de entender o Ser Humano. Porém, na época eu ainda tinha uma visão de mundo mecanicista demais para assimilar tais conteúdos e acabei abandonando o curso.
Fui trilhando outras possibilidades de atuação, descobrindo e passando pela Gestão de Pessoas e Coaching; áreas que chamaram minha atenção num momento em que passei a valorizar mais os aspectos psico-cognitivos (a mente), ignorando a importância de uma concepção integral de ser humano na minha atuação profissional.
Foram seis anos trabalhando com o Coaching (focado ememagrecimento, saúde e bem-estar), cuja metodologia era realizada basicamente por processos cognitivos/mentais. Hoje eu percebo que tudo isso parece indicar uma tamanha incompletude! Demorei a perceber que a minha visão profissional continuava mecanicista e fragmentada quanto à minha concepção de ser humano, tanto na Educação Física quanto no Coaching.
Por volta 2016, enveredei-me por estes caminhos através das “Práticas Corporais Alternativas” (PCAs), caracterizadas por serem práticas terapêuticas relacionadas ao corpo e ao movimento humano, cujo desenvolvimento acontece de forma não convencional e/ou não tradicional, sendo consideradas, portanto, de abordagem integrativa e holística.
Nesta época, eu questionava se minha atuação profissional era ou poderia ser terapêutica, se eu teria a ousadia de atuar não só no corpo físico, mas também no corpo emocional, mental, energético, social, espiritual... Surge aí uma nova questão: estaria eu me intrometendo em outras competências profissionais?
Entrei num momento de desconstrução de antigas crenças, aquelas mecânicas, racionalistas e cientificistas. Entendi posteriormente que é impossível lidar com pessoas apenas no aspecto físico e desconsiderar os demais aspectos, que juntos compõe a integralidade do ser humano. Estamos caminhando cada vez mais para a integralidade da educação e da saúde, no entanto ainda temos que vencer o desafio da visão mecanicista e fragmentada que herdamos historicamente no ocidente.
Foi então que em 2017 tive contato com a teoria de Wilhelm Reich, médico psicanalista e cientista natural, discípulo de Freud, que foi o pioneiro no trabalho com o corpo integral na clínica psicoterapêutica, e por isso é considerado o pai das terapias corporais contemporâneas no Ocidente na década de 1930. Ele percebeu que o Ser Humano vivencia a sua plenitude por meio de sua potência orgástica (através da sua potência de vida, expressa pelo bom fluxo da energia vital em nosso organismo); e pela sua capacidade de se autorregular, promovendo assim o estabelecimento de sua saúde integral.
Havia um “objeto” comum do meu interesse – o corpo – que serviu de pilar para que eu me aprofundasse em sua teoria e que me daria uma base científica na minha prática terapêutica corporal; e ao mesmo tempo me daria respostas aos meus questionamentos sobre a relação entre o corpo físico, mental, emocional, energético, social e espiritual.
Reich foi um cientista audacioso, que se dedicou a expandir os limites da ciência tradicional e mecanicista, mantendo sempre um olhar atento à verdadeira essência científica — pautada no conhecimento, na pesquisa rigorosa e na ética.
Nasceu em 24 de março de 1897, em Dobrzynica, uma aldeia da Galícia, parte do antigo império austro-húngaro. Durante sua vida, Reich desenvolveu teorias e técnicas terapêuticas próprias, as quais são (ainda) pouco consideradas pela comunidade acadêmica. Pelo fato de ter-se baseado numa concepção energética-vitalista e não no mecanicismo-materialismo, foi alvo de críticas tanto pelos meios científicos, quanto políticos e religiosos de sua época. Para ele, a era das máquinas introduziu o paradigma mecanicista na psicologia e na filosofia natural.
Foi excluído dos quadros da Associação Internacional de Psicanálise e passou, a partir de 1934, a chamar de Economia Sexual o seu conjunto de teorias. Interessado pela importância de energia sexual, Reich determinou-se a descobrir a natureza física da energia “libido”, que Freud havia inicialmente postulado, construindo e ampliando suas principais abordagens terapêuticas: a Análise do Caráter, a Vegetoterapia Carateroanalítica e a Orgonoterapia.
Saindo da linearidade psicanalítica de focar apenas em sintomas, Reich alavanca o modelo analítico e psicoterapêutico da época passando a considerar o nível sistêmico. Para curar os sintomas, deve-se entender, diagnosticar e trabalhar o caráter da pessoa. Para isto, é impossível ignorar o corpo e sua linguagem, pois ela expressa o caráter.
Segundo Reich, o corpo revela aspectos visíveis do mundo inconsciente e é considerado a porta de entrada fundamental para se buscar reequilibrar as disfunções neurovegetativas e o caráter de uma pessoa.
Em 1939 mudou-se para os Estados Unidos onde passou a trabalhar no campo da biofísica, estudando as principais leis físicas, especialmente em como a energia se comportava dentro e fora do indivíduo.
A visão reichiana se baseia pela busca da simplicidade na profundeza dos fenômenos e não pela fragmentação do conhecimento e dissociação da realidade, como o fazem no mecanicismo da ciência moderna. Reich propõe, através do pensamento funcional, o "retorno à simplicidade", a busca do princípio de funcionamento comum (PFC), o qual permite à humanidade a compreensão da essência dos fenômenos da vida.
Minhas experiências e buscas estão me levando para uma linha de atuação no desenvolvimento humano dentro deste paradigma funcionalista da ciência natural proposta por Reich. Este conceito tem mudado minha perspectiva na minha carreira, cuja concepção de ser humano se expandiu para um conceito integral, ou seja, uma visão de um ser indissociável, conectado, interdependente, funcional, energético e cósmico.
CLAUDIA VELOSO_ CORPOTERAPIA®