A Árvore e o Movimento Terapêutico: Uma Metáfora Viva para o Corpo

A árvore é um dos símbolos mais antigos e universais da humanidade. Ela representa a vida em constante transformação, o equilíbrio entre enraizamento e crescimento, nascimento e renovação. Conectada à terra, mas em direção ao céu, ela espelha a jornada humana entre corpo e consciência. Foi por isso que escolhi a árvore como símbolo do meu trabalho com a Terapia Corporal e com o Movimento Terapêutico: porque ela expressa, em forma viva, a sabedoria do corpo.

Muitas tradições filosóficas e espirituais falam da árvore da vida como um mapa simbólico do ser humano. No corpo, esse mapa começa na planta dos pés — que se assemelha a uma semente — e se estende até o topo da cabeça. Assim como uma árvore precisa de raízes fortes, de um tronco estável e de galhos livres para se expandir, o ser humano também precisa desses três níveis bem integrados para florescer.

Raízes: O Ajuste Tensional e o Enraizamento

No Movimento Terapêutico, as raízes correspondem ao nosso contato com o chão, à nossa estrutura básica de sustentação. Isso é o que chamamos de ajuste tensional. As tensões musculares crônicas, muitas vezes inconscientes, nos impedem de sentir segurança e presença no corpo. Através de movimentos específicos, respiratórios e de descarga, é possível reorganizar esse tônus muscular, trazendo uma base mais sólida e flexível para o corpo existir.

É aqui que entra o conceito de grounding, muito valorizado na psicoterapia corporal reichiana: estar enraizado significa ter os pés bem assentados no chão da realidade, estar conectado ao presente, à terra e às próprias emoções. Como lembra Leloup (2011), “se as raízes são sadias, toda árvore é sadia”. No corpo, isso começa pelos pés — nossas raízes na terra — que sustentam toda a estrutura acima.

Tronco: O Ajuste Metabólico e a Regulação Interna

O tronco representa o eixo central do corpo — a coluna, o abdômen, o tórax — e se relaciona com o ajuste metabólico. Aqui, o Movimento Terapêutico atua na regulação do fluxo interno, no equilíbrio entre ativação e repouso, entre inspiração e expiração, entre digestão e eliminação. É a área em que se localizam os órgãos vitais e onde pulsa a energia que nos mantém vivos.

Através de movimentos que estimulam a fáscia, a respiração diafragmática e o contato consciente com o eixo corporal, é possível reorganizar esse centro e ativar os processos de autorregulação. O tronco é o canal por onde sobe a seiva — ou a energia vital — que alimenta a expansão da vida. Manter esse eixo fluido e disponível é essencial para o equilíbrio emocional e físico.

Galhos: O Ajuste Sensorial e a Expansão da Consciência

Por fim, os galhos representam o nosso campo sensorial e perceptivo — a forma como sentimos, nos expressamos e nos abrimos ao mundo. No Movimento Terapêutico, isso se relaciona ao ajuste sensorial, à ampliação da percepção do corpo e ao acesso às emoções que muitas vezes estão aprisionadas em padrões inconscientes.

Com movimentos que exploram o espaço, o toque, o olhar e a respiração plena, os galhos podem “se abrir” — permitindo que o corpo acesse novas possibilidades de expressão, prazer e contato com o mundo. São os galhos que florescem e frutificam, assim como nossas vivências quando estamos integrados e disponíveis.

Corpo e Natureza: O Mesmo Ritmo, a Mesma Sabedoria

Assim como a árvore, o corpo é um sistema vivo que pulsa, sente, cresce e se transforma. Ele guarda memórias, tensões e potências. E quando cuidamos dele com atenção, abrimos espaço para que sua inteligência natural floresça. O Movimento Terapêutico é uma prática que honra essa sabedoria da natureza, permitindo que o corpo encontre seu caminho de volta ao equilíbrio — da raiz ao topo.

A pergunta de Leloup ressoa profundamente: "Quais são as nossas raízes?" Talvez o caminho para responder a essa pergunta não esteja apenas na mente, mas no corpo. E o Movimento Terapêutico pode ser essa trilha de volta para casa.

CLAUDIA VELOSO _ CORPOTERAPIA®

 

LELOUP, J. O corpo e seus símbolos: uma antropologia essencial. 19. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2011.

 

ARTIGOS RELACIONADOS